quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Proteger ou preparar?

Um episódio que se passou hoje na escola da Inês fez-me reflectir sobre o quanto devo proteger as minhas filhas vs prepara-las para a vida e para os perigos. Claro que o ideal está sempre no meio termo mas, como é sabido, não há régua ou termómetro ou qualquer outro instrumento que permita aferir se atingimos os valores ou a quantidade correcta.

Acho que o mais fácil e a tentação em que caímos mais frequentemente é proteger o mais possível. Em bebé, esconder tudo que é perigoso, segurar mesmo antes de cair, afastar os obstáculos, etc. Por acaso nunca fui muito assim. Sempre as deixei, dentro da razoabilidade, aprender com os seus erros. Não as levanto mal caem, não corro para afastar o que está à frente delas, não ajudo a alcançar aquilo que pretendem. Gosto que se desenrasquem, que se esforcem. Desde que não esteja comprometida a sua segurança, como é óbvio. Conforme vão crescendo os perigos vão-se alterando. É a aquisição da autonomia, são os amigos que escolhem, são as decisões que tomam. Apetece controlar, apetece mandar, proibir, mas não pode ser... nem resulta.

Acho mesmo que nos compete cada vez mais prepara-los, porque por mais que tentemos e nos esforcemos, não os podemos proteger sempre, não estamos sempre lá, há imensa coisa que nos foge do controlo. Preparar pode apenas significar conversar, alertar, dar a conhecer, mostrar o caminho. Cá em casa passa muito por conversar. Conversar muito sobre o mais possível. Dar abertura para que nos contem tudo, mostrar interesse mesmo por aquelas coisas de pouca relevância mas de tanta para elas. O que a amiga disse, o que a ou b fez, a brincadeira nova. Se falarem disso, falarão também se algo estranho acontecer.

Hoje, quando fui buscar a Inês à escola, disse-me logo: "Hoje tenho uma coisa para te contar. Sabes que esteve uma senhora no recreio a dar-nos uma coisa?" E mostra-me uma pastilha elástica. Pergunto quem é a senhora, uma professora, uma mãe de um amigo, uma auxiliar? "Não, mãe. Uma senhora que estava fora da escola mas foi à rede e começou a dar chiclets aos meninos. Eles comeram logo mas eu guardei a minha, Posso comer agora?".

Fiquei branca, Tirei-lhe logo aquilo da mão. Fiquei sem saber o que fazer mas senti um aperto. Isto não é normal. Fiz-lhe mais algumas perguntas mas não me conseguiu explicar mais nada. Ainda estava no estacionamento da escola, olho para dentro e vejo a auxiliar da sala dela ainda à porta, faço-lhe sinal e vou falar com ela. Mostrei-lhe a dita e fiz um resumo do acontecido. Ficou de boca aberta, pediu mil desculpas, disse que não sabia de nada. Isto aconteceu depois do almoço, período em que nem a educadora nem a auxiliar da sala dela estão presentes por também estarem no seu horário de almoço. Disse que falaria sobre isto à educadora. Eu pedi para que a história fosse aprofundada, que tentasse perceber o que realmente aconteceu. Parece-me uma clara e grave falha na segurança, supervisão das crianças.

E foi isto que me pôs a pensar, mais do que tentar proteger a Inês, tenho mesmo que a preparar para este tipo de coisas. O não falar e aceitar nada de estranhos é apenas uma delas. Claro que ela já sabia disso. Mas também é natural que a tentação fale mais alto.

Fiquei feliz e felicitei-a imenso pela atitude dela, embora tenha aceitado a pastilha elástica, guardou-a para me mostrar. Não sei se tenho algum mérito nisto mas ainda bem que a reacção dela foi esta. E claro, hoje teve direito a uma embalagem cheia de pastilhas elásticas só para ela (comeu uma e guardou as outras!).

16 comentários:

jmalho disse...

A atitude da tua filha mostra que aprendeu ;)
Já o que de facto também me preocuparia é a falta de supervisão nos recreios à hora do almoço. Não vejo a necessidade de ficarem sozinhos porque a educadora e a auxiliar foram almoçar ao mesmo tempo...
Bjos

sof* disse...

até fico nervosa com estes relatos. mas o que está a dar às pessoas para se porem com estas atitudes!!!! mas quem é que no seu bom senso se dirige a uma escola e dá seja o que for às crianças? andam com vontade de quê, de serem mal interpretados? isto foi de facto grave, e pensar que é normal as crianças ficarem sozinhas no recreio porque os responsáveis foram almoçar! isto está a tomar um rumo muito perigoso, suscitando a dúvida em cada pessoa que cruza os nossos caminhos.

em todo o caso, parabéns à tua filha que demonstrou muita maturidade e grande sentido de responsabilidade. o acompanhamento familiar é deveras primordial! (já que pelos vistos não se pode contar com o apoio escolar...)

Tica disse...

Só podes estar no bom caminho, pois a tua filha, ainda bem, teve a melhor atitude. Preparar e ter abertura para ouvi-los, eu acho que é o caminho certo. Em pequena a minha mãe recomendava-me não aceitar guloseimas de estranhos, pois explicava que essas pessoas só queriam a nossa confiança para depois nos levarem. E dizia-me: se quiseres rebuçados ou chicletes, eu compro, e dava-me uma moeda por dia, para eu comprar. Isto foi na primária. Esse tipo de perigos, porque infelizmente existem, já havia na nossa altura e permanecem. Agora na escola houve uma falha na supervisão.

http://www.ap-cd.pt - associação portuguesa de crianças desaparecidas - tem um manual que ajuda os pais a introduzir estes temas de forma a prepara-los/protege-los

Tica disse...

As pessoas que fazem isto ou são tontinhas (versão avózinha fofa, mas algo psico) ou pessoas más, muito más (raptos, pedofilia, etc.).
Já um dia destes na escola primária ao pé de minha casa estava um senhor com uma atitude suspeita, durante muito tempo a observar... Esta malta estuda os hábitos perto das escolas, e essa senhora, se for de má intenção, se calhar topou que a essa hora não há muito controle.
Não é à toa que todos os dias aparecem nos jornais mais casos de abusos :( é de doer a alma

Marta disse...

Na verdade não ficam sozinhos na hora de almoço (embora pareça que é como se ficassem). Não estão educadora e auxiliar da sala dela mas estão outras funcionárias da escola.
Está-me é a parecer que, ou em número ou em qualidade, não é suficiente.

A mamã da Beatriz... disse...

Marta faz o que te sugeri. Diz á educadora para pedir ao poícia da escola segura para dar lá um pulinho e explicar aos meninos que não se deve falar com estranhos (eles costumam fazer essas sessões muitas vezes), muito menos aceitar coisas. Ainda bem que a Inês foi uma menina "crescida"!
Beijinhos

Marta disse...

Eu quero acreditar que seja o caso da avózinha sem noção, quero mesmo!
Mas, mesmos sendo esse o caso, NUNCA deveria conseguir fazê-lo.
Se queria oferecer algo aos miúdos que se dirigisse ao portão e pedisse autorização para isso.
Se for o caso de ser algum familiar espero bem que seja identificado e que lhe seja (bem) puxadas as orelhas.

Su disse...

De facto foi uma situação muito grave. De preocupar mesmo qualquer mãe. Enfim... acho que tens razão em pensar que a explicação das várias situações que possam vir a surgir seja o teu principal objectivo.


beijinho e imagino o susto que tenhas passado

Isabel disse...

oh que situação, imagino como deves ter ficado com o coração apertado!!!!
ainda bem que a Inês reagiu dessa forma mas há que alertá-los mesmo, copncordo contigo. O conversar, o ouvir tudo o que eles nos têm para dizer é mesmo o melhor caminho.
um abraço

mamã do luisinho disse...

A Nini é mto crescida...parabéns:)
Bjinhos enormes!

Susana Happy Days disse...

A Nini foi muito Responsável!!!
Acho que fizeram bem em presenteá-la com uma caixa de chiclets só para ela :D
Contei à Matilde o que aconteceu e alertamo-la mais uma vez para vários perigos. Nunca falar, ir com ou aceitar nada de estranhos! E mesmo aquelas pessoas que possa ver todos os dias (com isto quero dizer pessoas que possam passar todos os dias junto ao gradeamento da escola e até possam chamar pelo nome!) não são AMIGAS. OU então que digam que conheçem os Papás!
Os Amigos são só os que os Papás dizem que são!!!
Por acaso já lá foi este ano à escola a Polícia falar de perigos e tal. E eu agora como menmbro da Associação de Pais e com o cargo que me ficou destinado, irei promover ações de prevenção e sensibilização e esta é uma das áreas a ser "tocada"
Se calhar podias falar lá na escola a ver se poderiam promover uma acção de prevenção juntamente com a Polícia. As crianças normalmente interiorizam muito bem as informações dessas acções ;)
Beijinhos

Carina M disse...

Ela de facto esteve bem, mas imagino a tua reação.
Bjs

Ana Costa disse...

Deixaste-me de coração apertado... e surpreendida com a atitude da tua Princesa... well done :)

Fala na escola e não descanses enquanto não tomarem uma atitude!

Beijocas

Filipa Serrão disse...

já ontem tinha ficado de boca aberta com o teu relato e com a possível gravidade da situação! Ainda bem que a Inês teve o discernimento de não aceitar, orgulha-te por isso! Mas eu teria uma conversa bem apertada com a educadora. é uma situação claramente inadmissível.

Daniela disse...

muito mau mesmo,mas olha a tua filha está de parabéns,portou-se mesmo,mesmo bem.E claro que é mérito teu ;)
dá mesmo medo as situações que não podemos controlar...
beijo grande em ti e nela

sofia disse...

Até fiquei parva...
Felizmente a tua menina é uma linda e soube guardar a pastilha e não a comer logo
Está mesmo de parabéns!