Um episódio que se passou hoje na escola da Inês fez-me reflectir sobre o quanto devo proteger as minhas filhas vs prepara-las para a vida e para os perigos. Claro que o ideal está sempre no meio termo mas, como é sabido, não há régua ou termómetro ou qualquer outro instrumento que permita aferir se atingimos os valores ou a quantidade correcta.
Acho que o mais fácil e a tentação em que caímos mais frequentemente é proteger o mais possível. Em bebé, esconder tudo que é perigoso, segurar mesmo antes de cair, afastar os obstáculos, etc. Por acaso nunca fui muito assim. Sempre as deixei, dentro da razoabilidade, aprender com os seus erros. Não as levanto mal caem, não corro para afastar o que está à frente delas, não ajudo a alcançar aquilo que pretendem. Gosto que se desenrasquem, que se esforcem. Desde que não esteja comprometida a sua segurança, como é óbvio. Conforme vão crescendo os perigos vão-se alterando. É a aquisição da autonomia, são os amigos que escolhem, são as decisões que tomam. Apetece controlar, apetece mandar, proibir, mas não pode ser... nem resulta.
Acho mesmo que nos compete cada vez mais prepara-los, porque por mais que tentemos e nos esforcemos, não os podemos proteger sempre, não estamos sempre lá, há imensa coisa que nos foge do controlo. Preparar pode apenas significar conversar, alertar, dar a conhecer, mostrar o caminho. Cá em casa passa muito por conversar. Conversar muito sobre o mais possível. Dar abertura para que nos contem tudo, mostrar interesse mesmo por aquelas coisas de pouca relevância mas de tanta para elas. O que a amiga disse, o que a ou b fez, a brincadeira nova. Se falarem disso, falarão também se algo estranho acontecer.
Hoje, quando fui buscar a Inês à escola, disse-me logo: "Hoje tenho uma coisa para te contar. Sabes que esteve uma senhora no recreio a dar-nos uma coisa?" E mostra-me uma pastilha elástica. Pergunto quem é a senhora, uma professora, uma mãe de um amigo, uma auxiliar? "Não, mãe. Uma senhora que estava fora da escola mas foi à rede e começou a dar chiclets aos meninos. Eles comeram logo mas eu guardei a minha, Posso comer agora?".
Fiquei branca, Tirei-lhe logo aquilo da mão. Fiquei sem saber o que fazer mas senti um aperto. Isto não é normal. Fiz-lhe mais algumas perguntas mas não me conseguiu explicar mais nada. Ainda estava no estacionamento da escola, olho para dentro e vejo a auxiliar da sala dela ainda à porta, faço-lhe sinal e vou falar com ela. Mostrei-lhe a dita e fiz um resumo do acontecido. Ficou de boca aberta, pediu mil desculpas, disse que não sabia de nada. Isto aconteceu depois do almoço, período em que nem a educadora nem a auxiliar da sala dela estão presentes por também estarem no seu horário de almoço. Disse que falaria sobre isto à educadora. Eu pedi para que a história fosse aprofundada, que tentasse perceber o que realmente aconteceu. Parece-me uma clara e grave falha na segurança, supervisão das crianças.
E foi isto que me pôs a pensar, mais do que tentar proteger a Inês, tenho mesmo que a preparar para este tipo de coisas. O não falar e aceitar nada de estranhos é apenas uma delas. Claro que ela já sabia disso. Mas também é natural que a tentação fale mais alto.
Fiquei feliz e felicitei-a imenso pela atitude dela, embora tenha aceitado a pastilha elástica, guardou-a para me mostrar. Não sei se tenho algum mérito nisto mas ainda bem que a reacção dela foi esta. E claro, hoje teve direito a uma embalagem cheia de pastilhas elásticas só para ela (comeu uma e guardou as outras!).